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23/09/2019 09h15
12h por dia, 7 dias por semana, R$ 936: como é pedalar fazendo entregas por aplicativo

São Paulo tem 30 mil entregadores ciclistas de apps, a maioria entre 18 e 27 anos, faixa etária que mais sofre com o desemprego.

Samuel sai às 9h do Capão Redondo para chegar ao trabalho, na Vila Olímpia, por volta das 10h. Vai de bicicleta, com uma caixa térmica de 45 litros nas costas e a meta de só voltar pra casa depois de colocar no bolso R$ 50 com entregas para os aplicativos em que está cadastrado: Rappi, iFood e Uber Eats.

“A gente não descansa”, diz o rapaz, que trabalha pelo menos 12 horas por dia e sete dias por semana. Ganha cerca de R$ 1 mil por mês com a jornada, já descontados os gastos com alimentação e um ou outro imprevisto do caminho, como um pneu furado. “Não me lembro da minha última folga desde que comecei a trabalhar com isso, um ano atrás. Toda as vezes que sento para assistir à televisão em casa, penso que poderia estar pedalando e fazendo algum dinheiro”, afirmou.

Ele é um entre os cerca de 30 mil entregadores ciclistas cadastrados nos aplicativos somente na capital paulista. O número dá a dimensão de uma atividade que, há um ano, passava quase despercebida em São Paulo. Hoje, os ciclistas com caixas nas costas tomam as paisagens dos centros comerciais nas horas de pico da fome – das 12h às 15h e das 19h às 22h –, além de serem presença constante em calçadas próximas a shopping centers, restaurantes ou supermercados nos fins de semana.

DE 18 A 27 ANOS
Um perfil desse trabalhador foi traçado em junho pela Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), coordenado pelo instituto Multiplicidade e apoiado pelo Laboratório de Mobilidade Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após entrevistas com 270 ciclistas em São Paulo, o levantamento concluiu que 75% desses profissionais têm idade entre 18 e 27 anos e, como Samuel, pedalam cerca de 12 horas por um salário médio mensal de R$ 936. Realizam diariamente dez entregas, a R$ 5 cada. Seis em cada dez ciclistas trabalham todos os dias da semana, sem folgas.

Apenas o iFood comentou a pesquisa. A startup tem dados diferentes sobre jornada e folgas. Levantamento da empresa aponta que os ciclistas ficam disponíveis para as entregas dentro da plataforma por, no máximo, dois dias consecutivos e que trabalham, em média, 8 dias do mês. “A maioria dos parceiros pedala cerca de 10 km por dia durante o período de entregas”, disse a companhia, em nota.

Para Daniel Guth, diretor executivo da Aliança Bike, as divergências nos dados ocorrem em função de os ciclistas prestarem serviços para várias empresas de aplicativo. “O ciclista não trabalha só para uma companhia”, diz. “Um trabalhador pode muito bem pegar entregas do iFood em dois dias da semana e trabalhar para o Uber Eats e para o Rappi nos outros dias. Ou pode ser tudo isso no mesmo dia.”

PICOS DE CONSUMO
Para Guth, mais do que a distância pedalada, o desafio hoje de quem faz entregas com uma bicicleta nas ruas da cidade diz respeito à alta concentração dos pedidos. Segundo ele, isso gera uma falha de mercado: os ciclistas ficam parados por um período muito longo, por conta da baixa demanda fora dos horários de pico.

O serviço, segundo os aplicativos, está dividido basicamente em dois momentos – na hora do almoço e na do jantar. Os pedidos estão distribuídos em um raio de até 3 quilômetros entre o restaurante e o cliente. “Como o ciclista mora longe, ele não pode voltar para casa depois do almoço para retomar o trabalho na parte da noite. Acaba ficando o dia inteiro à espera dos pedidos”, diz Guth.

Nas ruas, principalmente perto de shoppings e hipermercados, é fácil encontrar grupos com cinco a dez entregadores de bicicleta. “Das 15h às 19h a gente geralmente não faz quase nada, só esperando e conversando”, afirma Erick, de 19 anos. No último dia 5, ele estava na Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, a 44,6 quilômetros de sua casa, no município de Itaquaquecetuba. “Não dá para voltar pra Itaquá. Eu saio pedalando antes do almoço e passo o dia na rua, esperando dar o horário das entregas da noite”, disse.

Esse é o primeiro emprego de Erick. Ao completar 18 anos, ele começou a procurar trabalho. “Peguei a (carteira de) reservista no ano passado e fui tentar um emprego.” Visitou fábricas, lojas do centro e cadastrou seu currículo em sites de agências de emprego. “Só consegui umas entrevistas”, diz ele, que pegou sua bicicleta no começo de setembro e se cadastrou para as entregas via aplicativos. Quando encontrou a reportagem, estava há uma semana no serviço. O plano, diz, é guardar dinheiro para prestar vestibular nos próximos anos. “Quero fazer engenharia civil.”

BASES
As principais bases, além do centro, estão no Largo da Batata, em Pinheiros, na Praça Oswaldo Cruz, no início da Avenida Paulista, e na Rua Mariana Amorim Carrão, no Itaim Bibi. Essa rua é a mais concorrida da cidade – principalmente nos fins de semana.


'VAMPIROS'
A rua foi inteiramente abraçada pelo Extra Itaim, que ocupa as laterais e os fundos. De longe, parece com a entrada do estacionamento do supermercado. Apelidada de “caverna”, a via virou ponto de apoio improvisado, com sofás e lâminas de papelão pelos cantos. Ali trabalham os “entregadores vampiros”, que dormem na rua durante o dia para passar a madrugada trabalhando. É comum os casos dos que chegam na rua na sexta-feira para voltarem para casa no fim do domingo.

Caio, 19 anos, e Samuel, citado no início desta reportagem, são dois dos que costumam virar o fim de semana trabalhando e dormindo na “Caverna”. “A gente dorme na rua entre uma entrega e outra na madrugada”, diz Caio. “O trabalho é assim. Mas é porque eu quero. Ligo e desligo o aplicativo a hora que quiser. Trabalho sem patrão.”

CRESCIMENTO
Nos últimos anos, os aplicativos de entrega têm chamado a atenção pelo rápido crescimento. A colombiana Rappi, que chegou ao Brasil em julho de 2017, diz que o faturamento de sua operação local cresce 30% ao mês. No fim de 2018, recebeu investimento de US$ 200 milhões do fundo DST Global, o que a colocou entre as “unicórnios” do mercado, nome dado às empresas de tecnologia avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

Além do Uber, que tem ações negociadas em Nova York, a brasileira Movile, dona do iFood, é outra que também recebeu, no ano passado, a alcunha de “unicórnio”. Segundo estudo do Itaú BBA, a busca por conveniência é o combustível do crescimento dos serviços de entrega. O cliente quer comida quente, e rápido – é exatamente o que os bikeboys se dispõem.

PERFIS
Somos invisíveis
O último emprego registrados de Leandro, 37, foi em 2016 como copeiro de um hospital. De lá para cá, ele vem se virando com bicos. Sem dinheiro para comprar uma moto, pegou sua bicicleta e começou a fazer entregas há três meses. “Tenho tirado uns R$ 500. É muito pouco”, conta ele, que pedala todos os dias de Taboão da Serra até Pinheiros. “Quando as pessoas pedem uma pizza em uma pizzaria conhecida, o motoqueiro entrega e é bem recebido, ganha até caixinha. O entregador de aplicativo é invisível. As pessoas nem olham para nós.”

Só no final de semana
Estudante de enfermagem, Lucimeire já foi pilota do Bikixi (bicicletas-táxi que circulavam pela Avenida Faria Lima, na zona oeste de São Paulo) e passou a fazer entregas quando o serviço foi descontinuado. Uma das poucas mulheres a fazer entregas em São Paulo, trabalha aos finais de semana, quando é possível faturar até R$ 150. “Eu estudo e cuido de minha filha. Faço entregas para me ajudar com os gastos, mas o trabalho não paga minhas contas.”

Perdeu emprego de caminhoneiro
Ex-caminhoneiro, Henrique perdeu o emprego há seis meses. Sem dinheiro para alugar um carro e trabalhar como motorista de aplicativo, pegou uma bicicleta emprestada e tem trabalhado há quatro meses, todos os dia. “É o que dá para fazer no momento. Eu vou esperar as coisas melhorarem um pouco e tenta voltar a trabalhar como motorista de caminhão.”

Ganha mais que em restaurante
Natanel Souza, 26, chegou do Ceará há 1 ano para trabalhar em um restaurante. “Trabalhava muito e ganhava pouco”, diz ele, que começou fazer entregas de bicicleta na região da Paulista há dois meses. “Dá para fazer até R$ 1, 6 mil se trabalhar direito, todo dia”, conta ele, que vai de Brasilândia, na zona norte, até a Paulista. “Ninguém quer trabalhar aqui. Eles têm medo das subidas”, diz.

(Com informações Estadão Conteúdo – Imagem: reprodução Portal Estadão)